«E tu estavas ali, como eu nunca te tinha visto, como eu jamais imaginei possível. Eras tu. Juro que me belisquei no ato mais consciente do meu nervosismo. Caramba, eu vivi a esquecer-te e naquele instante recordei cada palavra que trocamos, cada imagem tua que procurei, cada espera em vão... Sim, eras mesmo tu, o mesmo corpo pequenino, quase frágil para quem nunca te soube e os gestos desordenados como se mais alguém vivesse dentro de ti. Conheço cada recanto do teu rosto quando fecho os olhos e te sorrio em prazer, no prazer que ninguém experimentou. Tu, depois de tantos planos, de tanta vida, tantas voltas. Fiquei parada no movimento da tua mão a segurar a chávena de café, as tuas mãos quase sempre geladas - incomoda-me a minha convicção de ti.
Podia levantar-me e disfarçar com o mapa - bom, já ninguém usa mapa - ou podes nem sequer reconhecer-me, e eu estou diferente. Quis levantar-me e ter a coragem de enfrentar a verdade do meu desaparecimento de tudo o que é teu. Eu estou diferente, é certo, mas sei que se me olhasses nos olhos conseguirias ler todas as palavras dos beijos que te quis dar, das culpas de uma paixão que aconteceu de nada e que tudo devastou em mim. Eu tinha medo que tivesses a capacidade de renascer tudo isso em mim, porque nos meus olhos estava a minha acusação, a denuncia já tinha caído no tampo da mesa com a rapidez que me protegeu dos olhares mais próximos. Nunca agradeci tanto ter guardado na mala aqueles óculos, já nem pergunto a razão de os ter olhado na duvida se de facto serem necessários - ainda disfarcei a minha tristeza pela falta de neve
Eu não podia continuar a olhar o mapa como se estivesse a ler uma crónica do Lobo Antunes, como se fosse míope. Ri da minha figura e com a mesma naturalidade com que cheguei, levantei-me, depois dos primeiros passos ainda voltei atrás para apanhar o cachecol que ficou pendurado na cadeira. Não sei se os passos dados em seguida foram apressados ou não, apenas me contive na porta - sorte a minha que tinha começado a chover - a pensar que eu podia dirigir-me à tua mesa apresentar-me aos presentes e roubar-te um beijo, seguido de um pedido de desculpas e um obrigada em eco na fuga. »
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