26/09/2012

Um dia, Paris.

«E tu estavas ali, como eu nunca te tinha visto, como eu jamais imaginei possível. Eras tu. Juro que me belisquei no ato mais consciente do meu nervosismo. Caramba, eu vivi a esquecer-te e naquele instante recordei cada palavra que trocamos, cada imagem tua que procurei, cada espera em vão... Sim, eras mesmo tu, o mesmo corpo pequenino, quase frágil para quem nunca te soube e os gestos desordenados como se mais alguém vivesse dentro de ti. Conheço cada recanto do teu rosto quando fecho os olhos e te sorrio em prazer, no prazer que ninguém experimentou. Tu, depois de tantos planos, de tanta vida, tantas voltas. Fiquei parada no movimento da tua mão a segurar a chávena de café, as tuas mãos quase sempre geladas - incomoda-me a minha convicção de ti.
Podia levantar-me e disfarçar com o mapa - bom, já ninguém usa mapa - ou podes nem sequer reconhecer-me, e eu estou diferente. Quis levantar-me e ter a coragem de enfrentar a verdade do meu desaparecimento de tudo o que é teu. Eu estou diferente, é certo, mas sei que se me olhasses nos olhos conseguirias ler todas as palavras dos beijos que te quis dar, das culpas de uma paixão que aconteceu de nada e que tudo devastou em mim. Eu tinha medo que tivesses a capacidade de renascer tudo isso em mim, porque nos meus olhos estava a minha acusação, a denuncia já tinha caído no tampo da mesa com a rapidez que me protegeu dos olhares mais próximos. Nunca agradeci tanto ter guardado na mala aqueles óculos, já nem pergunto a razão de os ter olhado na duvida se de facto serem necessários - ainda disfarcei a minha tristeza pela falta de neve
Eu não podia continuar a olhar o mapa como se estivesse a ler uma crónica do Lobo Antunes, como se fosse míope. Ri da minha figura e com a mesma naturalidade com que cheguei, levantei-me, depois dos primeiros passos ainda voltei atrás para apanhar o cachecol que ficou pendurado na cadeira. Não sei se os passos dados em seguida foram apressados ou não, apenas me contive na porta - sorte a minha que tinha começado a chover -  a pensar que eu podia dirigir-me à tua mesa apresentar-me aos presentes e roubar-te um beijo, seguido de um pedido de desculpas e um obrigada em eco na fuga. »

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