Mostrar mensagens com a etiqueta Letras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Letras. Mostrar todas as mensagens

23/12/2012

Um dia, Paris IV


«Eu queria que fosse de outra maneira, mas há palavras que estão condenadas a nunca serem ditas. Não vou negar que faz-me mal o ficar tanto por dizer todas as vezes que falamos. Já não posso afirmar que sabes, há dias que não sei se sabes - entendes – a emoção de te sentir por dentro. Penso no que poderia ser se tudo fosse dito, não sei se isso será o meu maior erro ou a minha maior defesa. O maior medo é o de te perder no que pouco que chega até aqui. Os meus olhos denunciam-me agora, não consigo enganar-me, é tão difícil não saber de ti, saber-te bem. Sim, quero-te bem - mesmo que esta palavra seja muito tempo e todo esse tempo seja sem mim.
Não vou negar que o meu egoísmo, que te justifica por dentro, deseja que não estejas bem, como se de uma forma ridícula se sinta capaz de devolver-te outro estado. Sim, eu gostava de ser o que precisas, mas tenho momentos de clareza – como este que dói – onde sei exatamente que esta é a maior loucura de ti. Eu não tenho nada para te oferecer, tu saberás.
O meu coração sobreviverá a ti, mesmo que eu sinta que morre todos os dias por não te ter. Confesso que já não sei se sou eu que me ato a ti todas as vezes que sinto que te vais, ou se tu me devolves as amarras como se esperasses que um dia as deixasse caídas. Lamento dizer-te, das palavras que não posso fazer minhas, eu não quero atar-me a ti! Magoa-me tanto a ideia do que eu sou para ti. E o que sou é deveras tão pouco que tu já devias ter-me esquecido.
Esta noite acordei de um sonho contigo e isso deveria ser das coisas que nunca te diria, por ser tão inexplicável. Já me perdi com pensamentos existenciais, daqueles que não conseguimos compreender na totalidade mas que toda a gente um dia os tem, mas por estes dias apenas gostava de saber como é que consigo inventar-te gestos e perpetuar aquela tua imagem de Março, naquela manhã em que a minha terra parou de girar por breves instantes.»

19/12/2012

Um dia, Paris III


«Tenho a viagem marcada. Gastei as sobras do que restava para te esquecer. Decidi que tenho que te esquecer. As temperaturas estão muito baixas, já separei todos os casacos e lãs que poderei levar, posso levar muita roupa, não vou com vontade e dinheiro para comprar nada. Aliás tenho quase a certeza que além de muito chá quente pouco vou comer, espero distrair-me em tudo o que desconheço. Vou fazer duas paragens até lá, são quase o dobro das horas que levaria se tivesse a capacidade para adquirir um bilhete direto. Ainda falta tanto tempo. A minha vida anda à volta disso, não consigo pensar em mais nada.
Será que tu consegues compreender essa minha ansiedade?! Já pensei que estarei louca, tu não sabes, tu não fazes ideia que eu existo, muito menos que empreendo uma contenda para te esquecer. E tu tens sorte! Claro, não vives com esta agonia que é não saber que é isto que eu designo de doença, que em sonhos é a demência que mais me apraz.
Às vezes penso que te devia contar, outras que me devia afastar, outras até que devia fazer as duas coisas – eu no fundo sei que isso seria o mais sensato a fazer. Mas estas mesmas vezes, fico a pensar nas tuas poucas palavras, na esmola de amizade que chega até mim e nos poucos, quase inexistentes, momentos de cumplicidade que tivemos. Eu pergunto-me porque não consigo deixar-te ir como a minha boca diz, como o meu corpo que se afasta?! Que é isso que me ata a ti?! Que não te quer perder, como se já te tivesse tido, que não quer esquecer-te, como se tivesse lutado tanto para te encontrar.
Eu chego a ter dores nas mãos e tremores no corpo quando adormeço a pensar em ti. Incrivelmente é também a pensar em ti que acordo. Confesso que esta rotina tem sido alterada, e foi durante algum tempo de uma forma egoísta, mas estou farta, estou tão frágil e é de todo impossível conseguir a força para te fingir no passado. Tu és tão presente que até me abalroas o respirar. Já não estou a conseguir segurar as lágrimas quando vou a conduzir e ouço alguma música que me faz lembrar de ti – não que seja alguma que tivesse ouvido contigo, é a tal loucura – ando a conduzir de óculos escuros e a chover.
Tenho esperança que a terapia desta viagem resulte. Desta vez não te vou ver e isso faz parte deste segundo plano de te esquecer. Sei que estaria a mentir se não admitisse que vou inexplicavelmente procurar-te em cada esquina. Eventualmente vou inventar-te um desdém e gestos bruscos, um ar desengonçado, fresco, mas o sorriso, que eu decorei, será teu, avassalador.
Vou tirar fotografias a tudo e a mais alguma coisa, vou manter-me atenta a tudo, consequentemente não me vou lembrar de ti. Depois, quando anoitecer e amanhecer, nestes dois momentos não poderei fazer milagres, irei carpir a dor. Que é lancinante. E dói tanto. Quem sabe depois debater no fundo da capacidade de sofrer a ínfima parte de mim narcisista não acorda e eu regresse a casa sem ti.»

15/10/2012

Um dia, Paris II

«Seguimos de comboio entre Salzburgo e Graz. Paramos entre as montanhas junto do Hallstatter See, um lago imponente no tecto da Europa antiga de leste. Descemos na gare e a densidade do ar e a sensação que viajaste no tempo tomam-te, podíamos estar perfeitamente no Século XIX, paredes de tijolo, acabamentos de granito e ferro negro.
Saímos pela porta lateral, não quero precipitar a visão do lugar onde estamos. Descemos numa das poucas ruas desta pequena vila perdida nas alturas. Pediste para pararmos, querias vestir o casaco, aqui faz 10 graus no Outono, eu vestia o mesmo corta-vento que trazia na viagem de avião, não sou de ter muito frio, como se tivesse talhada para estes lugares. Andamos devagar, sei que estás fascinado com as cores das árvores, revestidas com folhas de cores quentes, aqui o nevoeiro é denso e forma colunas entre as casas e tu ris porque parece que o podemos cortar quando passamos na rua. Pareces um miúdo e isso delicia-me! Estás ansioso para ver além das montanhas que nos circundam. Gostas do cinzento e do branco que se começa a observar no cume chateio-me por momentos porque estou a falar sozinha, é evidente que acertei perfeitamente no lugar certo para te trazer.
Estamos quase na esquina para entrar na rua principal, as casas tem todas a arquitectura típica das casas de montanha, aqui parecem mais coloridas pelo contraste da luz de Outono e do clima sublime das montanhas. Apresso-me à tua frente, quero mesmo fotografar os teus olhos quando desfizermos a esquina. Como sempre armaste em bruto e resmungas com o meu stress, mas eu não te respondo. Fico por momentos presa ao chão a olhar a paisagem que me devora os sentidos isto é demasiado mágico. Anda lá, grito eu e as pessoas, poucas que vemos sorriem para o nosso português com simpatia. Bati a chapa dos teus olhos. Ficou boa ao menos, perguntaste, vieste ao meu encontro e quase me arrancaste a máquina das mãos, típico teu.
Posso dizer que te arranquei a alma naquele instante, tinhas os pés fora da terra e as mãos cheias tudo e de nada, nos teus olhos a entrega, o abandono e a alegria, era nítida a tua emoção, tinhas os olhos mais brilhantes que já te vi, como se do lago se tratassem. Neles viam-se os verdes de densas tonalidades e as cores pálidas das águas calmas, paradas do tempo era como se fossem prata do céu. Nos teus olhos a magnitude das casas à beira lago a pequenez da vila, a grandeza do mais nada, a singularidade da paisagem. Eu deixo-te ficar e deixo-me ir também nas imagens. Adoro o contraste das árvores revestidas de vermelhos intensos e amarelos torrados entres os telhados cinzentos e as casas coloridas. Sorris e eu sei que presépio é uma palavra que te deambula no pensamento. A uns metros de ti peço-te fecha os olhos e inspira. Vejo-te a fraquejar, assustado com o arrepio que sentes, como se tudo entrasse em ti, estivesse em ti e tu pudesses captar cada imagem cada recorte.
Vi uma lágrima que te escapa pela pestana e não tem nada que ver com tristeza, é a vida dentro de ti a transbordar. Ficamos assim durante alguns momentos até que olhaste-me nos olhos e a quebrar aquele romantismo todo, perguntaste onde podíamos comer. Tu estás sempre cheio de fome é impressionante. Primeiro tenho uma surpresa para ti, respondi.
Anda, arranjei uma hospedagem numa das casas típicas desta vila. Resmungaste pelo caminho todo e eu estou deliciada com o poder que tens de me derreter e de me deixar divertida. Chegamos, tivemos que subir uma rua nada fácil, gostas do aspecto, tem seis pequenas janelas e uma na zona que parece sótão. Aqui os tectos são em v com ponta quebrada. Entramos e eu arranho no meu alemão do curso livre que fiz o verão passado na universidade. Olho para ti e sorrio com prepotência, diziam-te os meus olhos que tu tens cá uma sorte em ter-me! Fazemos check-in e começamos a subir as escadas laterais. Deixo ficar as minhas malas num dos quartos do segundo andar e quando já te dirigias ao quarto ao lado, a senhora que nos conduzia amavelmente, segurou-te na mala e arrastou-te pelo último lance de escadas. Eu vou atrás claro, tu começas a perceber em que quarto estás e ficas fascinado com as traves, com a decoração de outros tempos ficas a decorar cada canto mesmo à entrada da porta, tinhas o olhar completamente alucinado. A senhora fica a olhar para ti e deverá estar em gritos a chamar-te louco assim como eu.
No instante em que os teus olhos passam pela janela, param no parapeito enorme colado a um sofá gigantesco da altura da janela. Despedi-me da senhora e dei-lhe a gorjeta que te iria sair cara, fechei a porta, precisava ver mais isto.
Encaminhaste-te para a janela e no aparto das tuas mãos vi a excitação do momento, abriste a janela em câmara lenta E sentaste no sofá a degustar a paisagem. Ali naquele instante eu soube, um dia, Paris, depois, todos os teus lugares. »

26/09/2012

Um dia, Paris.

«E tu estavas ali, como eu nunca te tinha visto, como eu jamais imaginei possível. Eras tu. Juro que me belisquei no ato mais consciente do meu nervosismo. Caramba, eu vivi a esquecer-te e naquele instante recordei cada palavra que trocamos, cada imagem tua que procurei, cada espera em vão... Sim, eras mesmo tu, o mesmo corpo pequenino, quase frágil para quem nunca te soube e os gestos desordenados como se mais alguém vivesse dentro de ti. Conheço cada recanto do teu rosto quando fecho os olhos e te sorrio em prazer, no prazer que ninguém experimentou. Tu, depois de tantos planos, de tanta vida, tantas voltas. Fiquei parada no movimento da tua mão a segurar a chávena de café, as tuas mãos quase sempre geladas - incomoda-me a minha convicção de ti.
Podia levantar-me e disfarçar com o mapa - bom, já ninguém usa mapa - ou podes nem sequer reconhecer-me, e eu estou diferente. Quis levantar-me e ter a coragem de enfrentar a verdade do meu desaparecimento de tudo o que é teu. Eu estou diferente, é certo, mas sei que se me olhasses nos olhos conseguirias ler todas as palavras dos beijos que te quis dar, das culpas de uma paixão que aconteceu de nada e que tudo devastou em mim. Eu tinha medo que tivesses a capacidade de renascer tudo isso em mim, porque nos meus olhos estava a minha acusação, a denuncia já tinha caído no tampo da mesa com a rapidez que me protegeu dos olhares mais próximos. Nunca agradeci tanto ter guardado na mala aqueles óculos, já nem pergunto a razão de os ter olhado na duvida se de facto serem necessários - ainda disfarcei a minha tristeza pela falta de neve
Eu não podia continuar a olhar o mapa como se estivesse a ler uma crónica do Lobo Antunes, como se fosse míope. Ri da minha figura e com a mesma naturalidade com que cheguei, levantei-me, depois dos primeiros passos ainda voltei atrás para apanhar o cachecol que ficou pendurado na cadeira. Não sei se os passos dados em seguida foram apressados ou não, apenas me contive na porta - sorte a minha que tinha começado a chover -  a pensar que eu podia dirigir-me à tua mesa apresentar-me aos presentes e roubar-te um beijo, seguido de um pedido de desculpas e um obrigada em eco na fuga. »