15/10/2012

Um dia, Paris II

«Seguimos de comboio entre Salzburgo e Graz. Paramos entre as montanhas junto do Hallstatter See, um lago imponente no tecto da Europa antiga de leste. Descemos na gare e a densidade do ar e a sensação que viajaste no tempo tomam-te, podíamos estar perfeitamente no Século XIX, paredes de tijolo, acabamentos de granito e ferro negro.
Saímos pela porta lateral, não quero precipitar a visão do lugar onde estamos. Descemos numa das poucas ruas desta pequena vila perdida nas alturas. Pediste para pararmos, querias vestir o casaco, aqui faz 10 graus no Outono, eu vestia o mesmo corta-vento que trazia na viagem de avião, não sou de ter muito frio, como se tivesse talhada para estes lugares. Andamos devagar, sei que estás fascinado com as cores das árvores, revestidas com folhas de cores quentes, aqui o nevoeiro é denso e forma colunas entre as casas e tu ris porque parece que o podemos cortar quando passamos na rua. Pareces um miúdo e isso delicia-me! Estás ansioso para ver além das montanhas que nos circundam. Gostas do cinzento e do branco que se começa a observar no cume chateio-me por momentos porque estou a falar sozinha, é evidente que acertei perfeitamente no lugar certo para te trazer.
Estamos quase na esquina para entrar na rua principal, as casas tem todas a arquitectura típica das casas de montanha, aqui parecem mais coloridas pelo contraste da luz de Outono e do clima sublime das montanhas. Apresso-me à tua frente, quero mesmo fotografar os teus olhos quando desfizermos a esquina. Como sempre armaste em bruto e resmungas com o meu stress, mas eu não te respondo. Fico por momentos presa ao chão a olhar a paisagem que me devora os sentidos isto é demasiado mágico. Anda lá, grito eu e as pessoas, poucas que vemos sorriem para o nosso português com simpatia. Bati a chapa dos teus olhos. Ficou boa ao menos, perguntaste, vieste ao meu encontro e quase me arrancaste a máquina das mãos, típico teu.
Posso dizer que te arranquei a alma naquele instante, tinhas os pés fora da terra e as mãos cheias tudo e de nada, nos teus olhos a entrega, o abandono e a alegria, era nítida a tua emoção, tinhas os olhos mais brilhantes que já te vi, como se do lago se tratassem. Neles viam-se os verdes de densas tonalidades e as cores pálidas das águas calmas, paradas do tempo era como se fossem prata do céu. Nos teus olhos a magnitude das casas à beira lago a pequenez da vila, a grandeza do mais nada, a singularidade da paisagem. Eu deixo-te ficar e deixo-me ir também nas imagens. Adoro o contraste das árvores revestidas de vermelhos intensos e amarelos torrados entres os telhados cinzentos e as casas coloridas. Sorris e eu sei que presépio é uma palavra que te deambula no pensamento. A uns metros de ti peço-te fecha os olhos e inspira. Vejo-te a fraquejar, assustado com o arrepio que sentes, como se tudo entrasse em ti, estivesse em ti e tu pudesses captar cada imagem cada recorte.
Vi uma lágrima que te escapa pela pestana e não tem nada que ver com tristeza, é a vida dentro de ti a transbordar. Ficamos assim durante alguns momentos até que olhaste-me nos olhos e a quebrar aquele romantismo todo, perguntaste onde podíamos comer. Tu estás sempre cheio de fome é impressionante. Primeiro tenho uma surpresa para ti, respondi.
Anda, arranjei uma hospedagem numa das casas típicas desta vila. Resmungaste pelo caminho todo e eu estou deliciada com o poder que tens de me derreter e de me deixar divertida. Chegamos, tivemos que subir uma rua nada fácil, gostas do aspecto, tem seis pequenas janelas e uma na zona que parece sótão. Aqui os tectos são em v com ponta quebrada. Entramos e eu arranho no meu alemão do curso livre que fiz o verão passado na universidade. Olho para ti e sorrio com prepotência, diziam-te os meus olhos que tu tens cá uma sorte em ter-me! Fazemos check-in e começamos a subir as escadas laterais. Deixo ficar as minhas malas num dos quartos do segundo andar e quando já te dirigias ao quarto ao lado, a senhora que nos conduzia amavelmente, segurou-te na mala e arrastou-te pelo último lance de escadas. Eu vou atrás claro, tu começas a perceber em que quarto estás e ficas fascinado com as traves, com a decoração de outros tempos ficas a decorar cada canto mesmo à entrada da porta, tinhas o olhar completamente alucinado. A senhora fica a olhar para ti e deverá estar em gritos a chamar-te louco assim como eu.
No instante em que os teus olhos passam pela janela, param no parapeito enorme colado a um sofá gigantesco da altura da janela. Despedi-me da senhora e dei-lhe a gorjeta que te iria sair cara, fechei a porta, precisava ver mais isto.
Encaminhaste-te para a janela e no aparto das tuas mãos vi a excitação do momento, abriste a janela em câmara lenta E sentaste no sofá a degustar a paisagem. Ali naquele instante eu soube, um dia, Paris, depois, todos os teus lugares. »

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