«Seguimos de comboio entre Salzburgo
e Graz. Paramos entre as montanhas junto do Hallstatter See, um lago
imponente no tecto da Europa antiga de leste. Descemos na gare e a
densidade do ar e a sensação que viajaste no tempo tomam-te, podíamos
estar perfeitamente no Século XIX, paredes de tijolo, acabamentos de
granito e ferro negro.
Saímos
pela porta lateral, não quero precipitar a visão do lugar onde estamos.
Descemos numa das poucas ruas desta pequena vila perdida nas alturas.
Pediste para pararmos, querias vestir o casaco, aqui faz 10 graus no
Outono, eu vestia o mesmo corta-vento que trazia na viagem de
avião, não sou de ter muito frio, como se tivesse talhada para estes
lugares. Andamos devagar, sei que estás fascinado com as cores das
árvores, revestidas com folhas de cores quentes, aqui o nevoeiro é denso
e forma colunas entre as casas e tu ris porque parece que o podemos
cortar quando passamos na rua. Pareces um miúdo e isso delicia-me! Estás
ansioso para ver além das montanhas que nos circundam. Gostas do
cinzento e do branco que se começa a observar no cume chateio-me por
momentos porque estou a falar sozinha, é evidente que acertei
perfeitamente no lugar certo para te trazer.
Estamos
quase na esquina para entrar na rua principal, as casas tem todas a
arquitectura típica das casas de montanha, aqui parecem mais coloridas
pelo contraste da luz de Outono e do clima sublime das montanhas.
Apresso-me à tua frente, quero mesmo fotografar os teus olhos quando
desfizermos a esquina. Como sempre armaste em bruto e resmungas com o
meu stress, mas eu não te respondo. Fico por momentos presa ao chão a
olhar a paisagem que me devora os sentidos isto é demasiado mágico. Anda
lá, grito eu e as pessoas, poucas que vemos sorriem para o nosso
português com simpatia. Bati a chapa dos teus olhos. Ficou boa ao menos,
perguntaste, vieste ao meu encontro e quase me arrancaste a máquina das
mãos, típico teu.
Posso
dizer que te arranquei a alma naquele instante, tinhas os pés fora da
terra e as mãos cheias tudo e de nada, nos teus olhos a entrega, o
abandono e a alegria, era nítida a tua emoção, tinhas os olhos mais
brilhantes que já te vi, como se do lago se tratassem. Neles viam-se os
verdes de densas tonalidades e as cores pálidas das águas calmas,
paradas do tempo era como se fossem prata do céu. Nos teus olhos a
magnitude das casas à beira lago a pequenez da vila, a grandeza do mais
nada, a singularidade da paisagem. Eu deixo-te ficar e deixo-me ir
também nas imagens. Adoro o contraste das árvores revestidas de
vermelhos intensos e amarelos torrados entres os telhados cinzentos e as
casas coloridas. Sorris e eu sei que presépio é uma palavra que te
deambula no pensamento. A uns metros de ti peço-te fecha os olhos e
inspira. Vejo-te a fraquejar, assustado com o arrepio que sentes, como
se tudo entrasse em ti, estivesse em ti e tu pudesses captar cada imagem
cada recorte.
Vi uma
lágrima que te escapa pela pestana e não tem nada que ver com tristeza, é
a vida dentro de ti a transbordar. Ficamos assim durante alguns
momentos até que olhaste-me nos olhos e a quebrar aquele romantismo
todo, perguntaste onde podíamos comer. Tu estás sempre cheio de fome é
impressionante. Primeiro tenho uma surpresa para ti, respondi.
Anda,
arranjei uma hospedagem numa das casas típicas desta vila. Resmungaste
pelo caminho todo e eu estou deliciada com o poder que tens de me
derreter e de me deixar divertida. Chegamos, tivemos que subir uma rua
nada fácil, gostas do aspecto, tem seis pequenas janelas e uma na zona
que parece sótão. Aqui os tectos são em v com ponta quebrada. Entramos e
eu arranho no meu alemão do curso livre que fiz o verão passado na
universidade. Olho para ti e sorrio com prepotência, diziam-te os meus
olhos que tu tens cá uma sorte em ter-me! Fazemos check-in e começamos a
subir as escadas laterais. Deixo ficar as minhas malas num dos quartos
do segundo andar e quando já te dirigias ao quarto ao lado, a senhora
que nos conduzia amavelmente, segurou-te na mala e arrastou-te pelo
último lance de escadas. Eu vou atrás claro, tu começas a perceber em
que quarto estás e ficas fascinado com as traves, com a decoração de
outros tempos ficas a decorar cada canto mesmo à entrada da porta,
tinhas o olhar completamente alucinado. A senhora fica a olhar para ti e
deverá estar em gritos a chamar-te louco assim como eu.
No
instante em que os teus olhos passam pela janela, param no parapeito enorme colado a um sofá gigantesco da altura da
janela. Despedi-me da senhora e dei-lhe a gorjeta que te iria sair cara,
fechei a porta, precisava ver mais isto.
Encaminhaste-te
para a janela e no aparto das tuas mãos vi a excitação do momento,
abriste a janela em câmara lenta E sentaste no sofá a degustar a paisagem. Ali naquele instante eu soube, um dia, Paris, depois, todos os teus lugares. »
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