«Tenho a viagem marcada. Gastei as sobras do que restava
para te esquecer. Decidi que tenho que te esquecer. As temperaturas estão muito
baixas, já separei todos os casacos e lãs que poderei levar, posso levar muita
roupa, não vou com vontade e dinheiro para comprar nada. Aliás tenho quase a
certeza que além de muito chá quente pouco vou comer, espero distrair-me em tudo
o que desconheço. Vou fazer duas paragens até lá, são quase o dobro das horas
que levaria se tivesse a capacidade para adquirir um bilhete direto. Ainda
falta tanto tempo. A minha vida anda à volta disso, não consigo pensar em mais
nada.
Será que tu consegues compreender essa minha ansiedade?!
Já pensei que estarei louca, tu não sabes, tu não fazes ideia que eu existo,
muito menos que empreendo uma contenda para te esquecer. E tu tens sorte!
Claro, não vives com esta agonia que é não saber que é isto que eu designo de
doença, que em sonhos é a demência que mais me apraz.
Às vezes penso que te devia contar, outras que me devia
afastar, outras até que devia fazer as duas coisas – eu no fundo sei que isso
seria o mais sensato a fazer. Mas estas mesmas vezes, fico a pensar nas tuas
poucas palavras, na esmola de amizade que chega até mim e nos poucos, quase
inexistentes, momentos de cumplicidade que tivemos. Eu pergunto-me porque não
consigo deixar-te ir como a minha boca diz, como o meu corpo que se afasta?!
Que é isso que me ata a ti?! Que não te quer perder, como se já te tivesse
tido, que não quer esquecer-te, como se tivesse lutado tanto para te encontrar.
Eu chego a ter dores nas mãos e tremores no corpo quando
adormeço a pensar em ti. Incrivelmente é também a pensar em ti que acordo.
Confesso que esta rotina tem sido alterada, e foi durante algum tempo de uma
forma egoísta, mas estou farta, estou tão frágil e é de todo impossível
conseguir a força para te fingir no passado. Tu és tão presente que até me
abalroas o respirar. Já não estou a conseguir segurar as lágrimas quando vou a
conduzir e ouço alguma música que me faz lembrar de ti – não que seja alguma
que tivesse ouvido contigo, é a tal loucura – ando a conduzir de óculos escuros
e a chover.
Tenho esperança que a terapia desta viagem resulte. Desta
vez não te vou ver e isso faz parte deste segundo plano de te esquecer. Sei que
estaria a mentir se não admitisse que vou inexplicavelmente procurar-te em cada
esquina. Eventualmente vou inventar-te um desdém e gestos bruscos, um ar desengonçado,
fresco, mas o sorriso, que eu decorei, será teu, avassalador.
Vou tirar fotografias a tudo e a mais alguma coisa, vou
manter-me atenta a tudo, consequentemente não me vou lembrar de ti. Depois,
quando anoitecer e amanhecer, nestes dois momentos não poderei fazer milagres,
irei carpir a dor. Que é lancinante. E dói tanto. Quem sabe depois debater no
fundo da capacidade de sofrer a ínfima parte de mim narcisista não acorda e eu
regresse a casa sem ti.»
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