19/12/2012

Um dia, Paris III


«Tenho a viagem marcada. Gastei as sobras do que restava para te esquecer. Decidi que tenho que te esquecer. As temperaturas estão muito baixas, já separei todos os casacos e lãs que poderei levar, posso levar muita roupa, não vou com vontade e dinheiro para comprar nada. Aliás tenho quase a certeza que além de muito chá quente pouco vou comer, espero distrair-me em tudo o que desconheço. Vou fazer duas paragens até lá, são quase o dobro das horas que levaria se tivesse a capacidade para adquirir um bilhete direto. Ainda falta tanto tempo. A minha vida anda à volta disso, não consigo pensar em mais nada.
Será que tu consegues compreender essa minha ansiedade?! Já pensei que estarei louca, tu não sabes, tu não fazes ideia que eu existo, muito menos que empreendo uma contenda para te esquecer. E tu tens sorte! Claro, não vives com esta agonia que é não saber que é isto que eu designo de doença, que em sonhos é a demência que mais me apraz.
Às vezes penso que te devia contar, outras que me devia afastar, outras até que devia fazer as duas coisas – eu no fundo sei que isso seria o mais sensato a fazer. Mas estas mesmas vezes, fico a pensar nas tuas poucas palavras, na esmola de amizade que chega até mim e nos poucos, quase inexistentes, momentos de cumplicidade que tivemos. Eu pergunto-me porque não consigo deixar-te ir como a minha boca diz, como o meu corpo que se afasta?! Que é isso que me ata a ti?! Que não te quer perder, como se já te tivesse tido, que não quer esquecer-te, como se tivesse lutado tanto para te encontrar.
Eu chego a ter dores nas mãos e tremores no corpo quando adormeço a pensar em ti. Incrivelmente é também a pensar em ti que acordo. Confesso que esta rotina tem sido alterada, e foi durante algum tempo de uma forma egoísta, mas estou farta, estou tão frágil e é de todo impossível conseguir a força para te fingir no passado. Tu és tão presente que até me abalroas o respirar. Já não estou a conseguir segurar as lágrimas quando vou a conduzir e ouço alguma música que me faz lembrar de ti – não que seja alguma que tivesse ouvido contigo, é a tal loucura – ando a conduzir de óculos escuros e a chover.
Tenho esperança que a terapia desta viagem resulte. Desta vez não te vou ver e isso faz parte deste segundo plano de te esquecer. Sei que estaria a mentir se não admitisse que vou inexplicavelmente procurar-te em cada esquina. Eventualmente vou inventar-te um desdém e gestos bruscos, um ar desengonçado, fresco, mas o sorriso, que eu decorei, será teu, avassalador.
Vou tirar fotografias a tudo e a mais alguma coisa, vou manter-me atenta a tudo, consequentemente não me vou lembrar de ti. Depois, quando anoitecer e amanhecer, nestes dois momentos não poderei fazer milagres, irei carpir a dor. Que é lancinante. E dói tanto. Quem sabe depois debater no fundo da capacidade de sofrer a ínfima parte de mim narcisista não acorda e eu regresse a casa sem ti.»

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